2019-03-22T11:01:53-03:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
É a política, ou a falta dela

Não dá mais para esperar, Bolsonaro tem que assumir a Presidência

Episódio envolvendo Rodrigo Maia, que ameaça abandonar reforma, será determinante para futuro do governo, que segue atuando em “modo campanha”

22 de março de 2019
11:01
Jair Bolsonaro ao lado de Flávio e Carlos Bolsonaro - Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Vou transcrever abaixo duas mensagens que troquei com um experiente consultor político de Brasília que ilustram bem o momento político do governo Jair Bolsonaro e evidenciam a necessidade de o governo, tido aqui como o presidente e seu núcleo familiar, adotar uma postura pragmática e começar, de fato, a governar.

  • Ouvimos de um parlamentar de oposição: a oposição está esfacelada e o apoio à reforma é de aproximadamente 80% dos membros. A reforma deve ser aprovada na Câmara no primeiro semestre.
  • Em contraponto, ouvimos de uma liderança importante do DEM: não há diálogo com o governo, essa reforma não sai antes do primeiro semestre da Câmara.

O natural seria o contrário, com a oposição desacreditando a reforma, e os partidos alinhados defendendo sua aprovação. O cerne da questão está nessa parte: “não há diálogo com o governo”.

O episódio envolvendo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o filho Carlos praticamente interditam de vez esse diálogo, pois Maia era um relevante canal de comunicação com partidos e liderança partidárias, que foram deixadas de lado ao longo de toda a campanha de eleição de Bolsonaro.

“Apesar da manutenção do otimismo do mercado, há um cenário de instabilidade instalado, o qual demanda atenção e coloca o presidente em situação paradoxal, pois, ao que tudo indica, a manutenção da estratégia de campanha pode colocar em risco a aprovação da Previdência, condição essencial para o sucesso do governo”, diz esse consultor.

Contexto

Esse clima de insatisfação e falta de diálogo tem de ser vista dentro do contexto eleitoral de 2018 que ainda permeia o governo. Segundo esse mesmo consultor, os motes centrais das eleições foram a radicalização do discurso contra a velha política e o uso das redes na comunicação direta com a população.

Assim, Bolsonaro formou seu governo apontando para a quebra do que conhecemos como “Presidencialismo de Coalizão”, priorizando as bancadas temáticas e deixando os partidos políticos em segundo plano.

Do ponto de vista da comunicação, foi mantida a estratégia de desgaste e conflito com a mídia tradicional e o contato direto via redes sociais.

A estratégia é válida para manter sua militância engajada, mas parece não estar dando resultado esperado, pois não trouxe mais apoiadores para o presidente, que vem observando queda de popularidade.

Mesmo que ressoe bem com apoiadores e parte da opinião pública esse clima de beligerância com a chamada “política tradicional” tem interditado o diálogo com o Congresso e entrar em conflito com o articulador da reforma pode prejudicar a estratégia de aprovação.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Clique aqui e receba a nossa newsletter diariamente

Qual a saída?

Para esse especialista, a reforma da Previdência depende de postura pragmática do Governo, através da priorização de recursos de retórica que o permitam abrir o diálogo com o Congresso e setores da sociedade, sem perder seu exército nas redes.

Ou seja, é possível manter o “exército” nas redes sem agredir aliados e isso serve também para o núcleo familiar, que embora tenha participação informal, sempre soará como algo forma ou “de governo”.

Tudo indica que o presidente terá de demonstrar compromisso com a reforma e demonstrar sacrifício. No entanto, nos lembra o consultor, o sinal inicial com a reforma dos militares foi no sentido contrário, já que o texto trouxe uma reestruturação de carreiras e parca economia ou “sacrifício” de R$ 10 bilhões.

Além disso, para lidar com um tema tão impopular como reforma da Previdência, as redes sociais não serão suficientes, será necessário um esforço de comunicação tradicional, via entrevistas, coletivas.

Mais uma avaliação

Em nota a clientes, uma grande corretora também fez uma avaliação semelhante, dizendo que “a encruzilhada de Bolsonaro está na vida real. Ou o presidente toma a decisão de ao menos uma vez contrariar seus apoiadores nas redes sociais e começa a tomar decisões e exercer postura mais presidencial em relação à política de uma forma geral, ou corremos risco de adiamentos infinitos da reforma da Previdência até que fique inviável votar a matéria”.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Clique aqui e receba a nossa newsletter diariamente
Comentários
Leia também
ENCRUZILHADA FINANCEIRA

Confissões de um investidor angustiado

Não vou mais me contentar com os ganhos ridículos que estou conseguindo hoje nas minhas aplicações. Bem que eu queria ter alguém extremamente qualificado – e sem conflito de interesses – para me ajudar a investir. Só que eu não tenho o patrimônio do Jorge Paulo Lemann. E agora?

Tendências da bolsa

AGORA: Ibovespa futuro avança em dia de alta volatilidade pós-Fed e dólar recua hoje

Após a decisão de juros do Fed, os mercados operam voláteis em um forte movimento de ajuste de carteiras hoje

O melhor do Seu Dinheiro

Mais um alarme de preço baixo, Tesla em queda, bear market do bitcoin, novo fundo do Itaú e outras notícias que mexem com o seu bolso

Apesar de resultados sólidos no quarto trimestre, papéis de construtoras seguem em queda. Confira se é hora de comprar ações do setor e quais informações você precisa levar em conta antes de decidir

De olho na bolsa

Esquenta dos mercados: Bolsas no exterior tentam se recuperar da queda após decisão do Fed e Ibovespa busca manter ritmo de alta mesmo com risco fiscal no radar

Depois de tocar os 112 mil pontos ontem (26), a bolsa brasileira precisa enfrentar o ajuste de carteiras ao novo cenário de juros altos

Exclusivo

Na “caça aos unicórnios”, Itaú lança fundo para aplicar em gestores de investimentos alternativos

O banco acaba de abrir para captação o Polaris, fundo com objetivo de retorno de até 25% ao ano e foco em investimentos que vão bem além do “combo” tradicional de bolsa, dólar e juros

CONSTRUTORAS COM DESCONTO

Vendas de imóveis em alta, ações em baixa. A queda das incorporadoras abriu uma oportunidade de compra na bolsa?

Os resultados do quarto trimestre mostram que as empresas do setor entregaram desempenhos sólidos, mas as ações caminham na direção contrária